
20.02.2026
Madalena Lopes, flauta solista no concerto "Ecos de Paris"
Entrevista por Rui Baeta
Cara Madalena, antes de mais, os nossos parabéns pelo percurso artístico que desenvolve com tanta consistencia e sucesso. É para nós um enorme prazer recebê-la para tocar neste concerto. Como descreve a sensação de ser a solista convidada no programa "Ecos de Paris" da Orquestra do Algarve? Fico muito feliz e grata por ter sido convidada para ser solista no programa “Ecos de Paris” da Orquestra do Algarve. É uma oportunidade muito especial para mim, não só pelo prestígio do projeto, mas sobretudo por ser a minha primeira vez a tocar como solista com uma orquestra profissional.É um momento que encaro com grande responsabilidade, mas também com muito entusiasmo, porque sempre vi este tipo de experiências como passos muitos importantes no meu crescimento artístico e pessoal. Trabalhar com músicos experientes, partilhar palco e construir algo em conjunto é algo que me inspira profundamente, poder fazê-lo com a Orquestra do Algarve é um grande prazer.
Deve ser particularmente emocionante estrear em Portugal a Sonata para Flauta de Francis Poulenc na versão orquestrada – poderia partilhar os seus sentimentos sobre isso?Estrear em Portugal a versão orquestrada da Sonata para Flauta de Francis Poulenc é algo que ainda me está a custar assimilar. É uma obra tão especial e tão presente no repertório flautístico que poder apresentá-la pela primeira vez desta forma no nosso país é, ao mesmo tempo, um privilégio enorme e uma grande responsabilidade.Claro que essa responsabilidade continua muito presente nos dias que antecedem os concertos, queremos sempre honrar a obra, o compositor e também o público, mas, sinceramente, o que fala mais alto é o entusiasmo. Há uma excitação muito genuína em poder dar vida a esta versão orquestral e partilhá-la com as pessoas. Para além disso, é uma peça muito delicada. Apesar de a flauta ter momentos de brilho, há uma fragilidade e uma subtileza constantes, e tocar isso com um conjunto orquestral tão grande exige ainda mais atenção, flexibilidade e audição. Para mim, é exatamente esse equilíbrio entre leveza, detalhe e elegância que Poulenc requere que torna esta experiência tão desafiante e ao mesmo tempo tão especial.
Poderia falar-nos um pouco sobre a Sonata para Flauta de Francis Poulenc?A Sonata para Flauta e Piano de Francis Poulenc é uma das obras mais emblemáticas do repertório para flauta. Foi escrita em 1957 e dedicada ao grande flautista francês Jean-Pierre Rampal, que a estreou nesse mesmo ano, no Festival de Strasbourg. Curiosamente, Poulenc confessava que não conhecia profundamente o instrumento quando começou a compor a sonata, e talvez tenha sido por isso que tenha escrito algo tão fresco, espontâneo e natural, explorando a personalidade da flauta de uma forma muito vocal e expressiva.É uma obra que, numa primeira audição e contacto, pode soar leve e simples, com melodias muito claras e elegantes, mas acho que posso falar por todos os flautistas que essa simplicidade é extremamente enganadora. A sonata exige um controlo enorme de som, fraseado, cor, além de uma grande flexibilidade expressiva, onde temos sempre pequenos detalhes a trabalhar, como nuances, articulações e respirações, que fazem toda a diferença.Por vezes, interpretar esta sonata faz-me lembrar a forma como abordamos a música de Wolfgang Amadeus Mozart: tudo parece natural e transparente, mas é precisamente essa transparência que não permite esconder nada, cada intenção fica exposta.O segundo andamento é, sem dúvida, um “tesouro” no repertório flautístico, que é frequentemente tocado de forma isolada, muito famoso pelo seu carácter. Quanto mais tocamos esta obra, mais descobrimos que há sempre “mais qualquer coisa” a dizer.
O que a fascina nesta obra e como acha que ela se enquadra no tema "Ecos de Paris", com toda a sua leveza e cor parisiense?O que mais me fascina nesta obra Poulenc é essa combinação humorística de Poulenc, com elegância, melancolia e cor por detrás de tudo. A música tem um lado espirituoso e quase irreverente, especialmente no Presto giocoso (o 3º andamento da sonata), mas de repente, consegue ser profundamente íntima e nostálgica na Cantinela (2º andamento). Essa dualidade de Poulenc toca-me muito.Dentro do tema “Ecos de Paris”, sinto que esta obra encaixa de forma muito natural. Poulenc faz parte daquela tradição musical francesa em que a clareza, a cor e a transparência são extremamente essenciais. O programa como um todo reforça essa ideia, onde temos a vivacidade elegante e cheia de carácter de Georges Bizet, como a Sinfonia nº 31 “Paris” de Wolfgang Amadeus Mozart, escrita para o público parisiense, e mesmo sendo de uma compositora americana, Rissolty Rossolty de Ruth Crawford Seeger acrescenta uma energia rítmica e uma paleta de cores muito viva, que dialoga bem com esta ideia de contraste e vitalidade.
Como tem decorrido a sua preparação para este concerto?Confesso que tem sido uma preparação bastante diferente do habitual. É uma obra que faz parte da minha lista de repertório praticamente todos os anos, mas adaptá-la à versão orquestral tem sido quase um exercício de imaginação constante.Nas minhas sessões de estudo dei por mim a pensar: como soará esta passagem com este grupo de instrumentos? Como vai funcionar o jogo de timbres e a afinação? Onde é que preciso de respirar, tendo em conta que entro com as madeiras ou com as cordas? São pequenos detalhes que mudam tudo e que, penso que terão de ser ajustados e pensados nos ensaios com a Orquestra do Algarve.Tendo em conta que estamos muito habituados a tocar esta sonata com piano, onde estamos focados unicamente no nosso pianista, aqui a escuta tem de ser muito mais ampla. Isso obrigou-me a ajustar o meu estudo e a pensar a obra de forma mais “orquestral”, o que tem sido desafiante, mas também muito estimulante.
Existe algum aspeto técnico ou interpretativo da peça que se tenha apresentado particularmente desafiante, ou que a tenha deixado ainda mais entusiasmada com a revelação de alguma descoberta?Um dos maiores desafios tem sido mesmo ajustar a cor do meu som ao contexto da orquestra, e ao que penso que será necessário de adaptar quando estiver em ensaio. Com piano, a referência é mais simples; com orquestra, há muito mais cores e camadas a acontecer ao mesmo tempo.Sobretudo nos pianos, tive de aprender a adaptá-los a um som inserido num conjunto muito maior, manter a delicadeza sem que o som desapareça, mas continuar presente. Encontrar esse equilíbrio entre integrar-me na orquestra e, ao mesmo tempo, manter presença, está a ser exigente, tendo em conta que ainda não ensaiei com a Orquestra do Algarve. Ao mesmo tempo, o processo está a ser muito entusiasmante. Esta procura fez-me redescobrir passagens que já conhecia há anos, mas sob uma nova perspetiva. É quase como se a obra ganhasse outra dimensão, e isso é das coisas mais bonitas deste processo.
Como gere a ansiedade antes de um concerto importante como este?Se for completamente honesta… acho que ainda não descobri a fórmula mágica para gerir a ansiedade antes de um concerto! Antes de concertos importantes fico sempre com aquele nervosismo extra, coração a bater mais depressa, mil pensamentos ao mesmo tempo, boca seca, e às vezes a única solução é mesmo aceitar que faz parte.A única coisa que está verdadeiramente no meu controlo é a minha preparação, estudar lentamente, rever detalhes e ter a sensação de que fiz tudo o que podia. Depois, no palco, já não dá para controlar tudo. Na verdade, nunca conseguimos tocar exatamente como idealizámos em casa, mas também acho curioso que é precisamente essa imprevisibilidade que torna cada concerto único e especial.
O seu prémio no Concurso Internacional de Música Júlio Cardona em 2025 foi uma grande conquista. De que forma essa vitória influencia a sua carreira e a leva a outras colaborações como esta, com a Orquestra do Algarve?O prémio no Concurso Internacional de Música Júlio Cardona em 2025 foi, sem dúvida, uma conquista muito especial para mim. Mais do que o reconhecimento em si, senti-o como um sinal de que estava no caminho certo e de que o meu trabalho e resiliência estavam a dar frutos.Num percurso artístico, é fácil termos dúvidas e questionarmo-nos se estamos a fazer as escolhas certas. Este prémio deu-me confiança para continuar a investir em mim e na minha carreira artística. Acredito que distinções como estas acabam também por abrir portas e gerar novas oportunidades, como esta colaboração com a Orquestra do Algarve. No fundo, vejo tudo como parte de um processo: cada experiência reforça a seguinte e motiva-me a continuar a evoluir, sempre com os pés bem assentes na terra.
Poderia partilhar uma memória marcante desse concurso?A memória mais marcante do Concurso Internacional de Música Júlio Cardona foi, na verdade, quando terminei de tocar a ronda da final. Foi uma ronda extremamente dura, não só pelo repertório exigente, mas também pelo tempo que tivemos para tocar e pela resistência que era necessária. Quando terminei, lembro-me de pensar: “Não consigo acreditar que consegui tocar isto!” Foi um misto de alívio, choque e felicidade que nunca mais vou esquecer.
Tem integrado orquestras prestigiadas, como a Gustav Mahler JugendOrchester em 2023 e a European Union Youth Orchestra em 2024/2025, atuando em salas icónicas como o Carnegie Hall ou a Elbphilharmonie. Como é que essas experiências internacionais moldam a sua personalidade musical e a abordagem profissional a concertos como este "Ecos de Paris"?Tocar com estas orquestras jovens europeias foi uma experiência que me marcou profundamente. Todas essas salas impõem muito respeito, é impossível não sentir aquela energia e dimensão do espaço, e isso exige atenção, muita concentração e responsabilidade.Do ponto de vista musical, aprendi a ouvir com mais cuidado, a adaptar a minha cor e articulação ao conjunto e a confiar na preparação que fiz. Também percebi como é importante encontrar equilíbrio entre disciplina e espontaneidade: podemos ter tudo estudado, mas cada concerto pede algo único. Para um programa como o Ecos de Paris, toda essa experiência ajuda-me a sentir-me mais segura, a gerir melhor a tensão e a dar espaço à expressividade, para que a música chegue com clareza e emoção ao público.
No programa, incluem-se obras de Bizet, Mozart e Ruth Crawford-Seeger – qual é a sua preferida além da de Poulenc, e porquê?Além da sonata de Francis Poulenc, diria que a minha peça preferida do programa é a Sinfonia nº 31 “Paris” de Wolfgang Amadeus Mozart.Adoro como Mozart consegue combinar brilho e leveza com uma energia contagiante. Cada andamento tem cores e ritmos muito diferentes, e mesmo sendo escrita há tanto tempo, consegue soar fresca e vibrante hoje. É uma daquelas obras em que sentimos imediatamente o génio da escrita orquestral, há espaço para detalhes delicados, mas também momentos de grande impacto, o que a torna divertida e inspiradora de ouvir.
Valoriza a divulgação de compositores diversos e pouco conhecidos ou defende a insistência exclusiva em nomes consagrados?Acho muito importante construir as nossas bases musicais com os grandes mestres da música clássica – como Mozart, Bach, Beethoven – porque é com eles que aprendemos técnica, estilo, profundidade, pois eles são, sem dúvida, os “pilares” da música. Mas, ao mesmo tempo, sinto que há um mundo enorme de compositores menos conhecidos que merece ser explorado. Existem obras incríveis que muitas pessoas nunca ouviram, e dar-lhes uma oportunidade de serem interpretadas é uma forma de manter a música viva, fresca e surpreendente. Para mim, é um equilíbrio: honrar o que já é clássico, mas também abrir portas para novas vozes e novas histórias dentro da música.
O que pensa sobre as características do público da música clássica, português e estrangeiro?Tenho notado algumas diferenças interessantes entre o público português e o estrangeiro. Estudando em Madrid e tocando várias vezes em Espanha, percebo que o público, em Espanha, é geralmente mais jovem, mais dinâmico e mais aberto a experimentar coisas novas, mesmo dentro da música clássica. Em Portugal, sinto que ainda existe um público muito dedicado, mas mais tradicional e mais “conservador” nos gostos, o que às vezes pode limitar a programação e a forma como se explora repertório mais diferente do habitual.No estrangeiro, de forma geral, existe também uma oferta cultural muito maior, com mais festivais, concertos e oportunidades para experimentar música de diferentes estilos e épocas. Isso acaba por criar um público mais diverso, que cresce com experiências variadas e está mais habituado a descobrir novas obras ou compositores menos conhecidos. Acho que, para nós, músicos portugueses, é extremamente inspirador perceber essas diferenças, porque nos mostra caminhos para aproximar a música clássica de públicos mais jovens e trazer mais dinamismo à forma como a interpretamos e a apresentamos.
Desde que iniciou os estudos aos 5 anos com a flauta de bisel e aos 8 com a transversal, no Conservatório Nacional de Lisboa, o que a mantém motivada?O que me mantém motivada é a vontade de fazer sempre mais e melhor. Gosto de me desafiar constantemente, explorar novas técnicas, descobrir repertório diferente e superar os obstáculos que surgem no caminho.O que me dá energia é poder transformar todo esse esforço em música para as pessoas que me ouvem, seja nas aulas, nas audições de orquestra ou nos concursos a que me apresento. Cada oportunidade de tocar em público é também uma oportunidade de aprender, de crescer e de sentir a música de forma mais profunda. A paixão por comunicar através da flauta é o que me faz continuar a investir tempo e dedicação todos os dias.
Há algum professor ou mentor que a inspire especialmente, como o Jacques Zoon na Escuela Superior de Música Reina Sofía, ou outro que queira referir?Tenho sido muito inspirada por alguns professores que marcaram o meu percurso como o meu professor atual, Jacques Zoon. Contudo, a minha professora de flauta de toda a vida, a Prof. Solange Silva, ensinou-me não só técnica, mas também a importância de uma rotina de estudo e de criar consistência, algo que se tornou fundamental na minha evolução como musicista.O meu professor assistente, Salvador Martínez, primeira flauta da Orquestra de Valência, trouxe-me uma preparação orquestral enorme, ajudando-me a compreender melhor o trabalho dentro de uma orquestra, a comunicação com os colegas e a sensibilidade que a música coletiva exige.Sinto-me muito sortuda por aprender com professores assim, que não só ensinam a tocar, mas que também mostram como crescer como músico, a perseverar e a sentir a música de forma completa.
Se estivesse a aconselhar um jovem músico que aspira seguir os seus passos, que sugestões lhe daria?Se estivesse a aconselhar um jovem músico, diria que não existe uma fórmula mágica. Eu própria ainda estou a encontrar o meu caminho e os meus objetivos na música. Mas acho que é essencial manter-nos fiéis à nossa própria música e à nossa forma de tocar, mesmo quando surgem desafios.A resiliência é fundamental: temos de trabalhar muito, todos os dias, e não ter medo de tentar atingir objetivos ambiciosos. Quanto mais nos desafiamos, mais crescemos. E acima de tudo, é importante não perder a paixão pelo que fazemos, é essa paixão que nos mantém motivados e nos faz continuar a aprender e a evoluir.
Quais são os seus planos futuros – tournées, gravações, projetos novos?Neste momento, as coisas estão um pouco incertas. Estou a terminar a minha licenciatura em Madrid, a fazer provas de mestrado e também a apresentar-me a audições para academias e lugares de orquestra. É muita coisa ao mesmo tempo, e infelizmente nem sempre se consegue prever o que vai acontecer.O que sei é que estou a dar o meu máximo em todas estas oportunidades, a aprender com cada experiência e a manter-me aberta ao que vier, o foco é estar preparada, tocar o melhor possível e deixar que as oportunidades surjam naturalmente.
Para concluir, que mensagem gostaria de deixar ao público que assistirá a este extraordinário concerto "Ecos de Paris"? Gostaria que cada pessoa que estiver na plateia se deixe levar pela música, que se permita descobrir detalhes novos a cada frase e que saia com a sensação de ter vivido algo especial.
Obrigado, Madalena, pelas suas respostas tão sinceras e interessantes. Ficamos assim a conhecê-la um pouco melhor, o que aumenta o já muito elevado desejo e grande vontade em ir ouvi-la em concerto. Muito sucesso na sua carreira e que esta seja a primeira vez de muitas outras. Obrigado eu! Espero que o público goste da minha versão de Poulenc e que consiga sentir toda a delicadeza, o humor e a emoção que esta obra transmite. Para mim, é uma peça cheia de cor e surpresa, e tocar com a orquestra neste concerto vai ser uma experiência incrível.
Saiba mais sobre os concertos aqui.
20.02.2026
Madalena Lopes, flauta solista no concerto "Ecos de Paris"
Entrevista por Rui Baeta
Cara Madalena, antes de mais, os nossos parabéns pelo percurso artístico que desenvolve com tanta consistencia e sucesso. É para nós um enorme prazer recebê-la para tocar neste concerto. Como descreve a sensação de ser a solista convidada no programa "Ecos de Paris" da Orquestra do Algarve? Fico muito feliz e grata por ter sido convidada para ser solista no programa “Ecos de Paris” da Orquestra do Algarve. É uma oportunidade muito especial para mim, não só pelo prestígio do projeto, mas sobretudo por ser a minha primeira vez a tocar como solista com uma orquestra profissional.É um momento que encaro com grande responsabilidade, mas também com muito entusiasmo, porque sempre vi este tipo de experiências como passos muitos importantes no meu crescimento artístico e pessoal. Trabalhar com músicos experientes, partilhar palco e construir algo em conjunto é algo que me inspira profundamente, poder fazê-lo com a Orquestra do Algarve é um grande prazer.
Deve ser particularmente emocionante estrear em Portugal a Sonata para Flauta de Francis Poulenc na versão orquestrada – poderia partilhar os seus sentimentos sobre isso?Estrear em Portugal a versão orquestrada da Sonata para Flauta de Francis Poulenc é algo que ainda me está a custar assimilar. É uma obra tão especial e tão presente no repertório flautístico que poder apresentá-la pela primeira vez desta forma no nosso país é, ao mesmo tempo, um privilégio enorme e uma grande responsabilidade.Claro que essa responsabilidade continua muito presente nos dias que antecedem os concertos, queremos sempre honrar a obra, o compositor e também o público, mas, sinceramente, o que fala mais alto é o entusiasmo. Há uma excitação muito genuína em poder dar vida a esta versão orquestral e partilhá-la com as pessoas. Para além disso, é uma peça muito delicada. Apesar de a flauta ter momentos de brilho, há uma fragilidade e uma subtileza constantes, e tocar isso com um conjunto orquestral tão grande exige ainda mais atenção, flexibilidade e audição. Para mim, é exatamente esse equilíbrio entre leveza, detalhe e elegância que Poulenc requere que torna esta experiência tão desafiante e ao mesmo tempo tão especial.
Poderia falar-nos um pouco sobre a Sonata para Flauta de Francis Poulenc?A Sonata para Flauta e Piano de Francis Poulenc é uma das obras mais emblemáticas do repertório para flauta. Foi escrita em 1957 e dedicada ao grande flautista francês Jean-Pierre Rampal, que a estreou nesse mesmo ano, no Festival de Strasbourg. Curiosamente, Poulenc confessava que não conhecia profundamente o instrumento quando começou a compor a sonata, e talvez tenha sido por isso que tenha escrito algo tão fresco, espontâneo e natural, explorando a personalidade da flauta de uma forma muito vocal e expressiva.É uma obra que, numa primeira audição e contacto, pode soar leve e simples, com melodias muito claras e elegantes, mas acho que posso falar por todos os flautistas que essa simplicidade é extremamente enganadora. A sonata exige um controlo enorme de som, fraseado, cor, além de uma grande flexibilidade expressiva, onde temos sempre pequenos detalhes a trabalhar, como nuances, articulações e respirações, que fazem toda a diferença.Por vezes, interpretar esta sonata faz-me lembrar a forma como abordamos a música de Wolfgang Amadeus Mozart: tudo parece natural e transparente, mas é precisamente essa transparência que não permite esconder nada, cada intenção fica exposta.O segundo andamento é, sem dúvida, um “tesouro” no repertório flautístico, que é frequentemente tocado de forma isolada, muito famoso pelo seu carácter. Quanto mais tocamos esta obra, mais descobrimos que há sempre “mais qualquer coisa” a dizer.
O que a fascina nesta obra e como acha que ela se enquadra no tema "Ecos de Paris", com toda a sua leveza e cor parisiense?O que mais me fascina nesta obra Poulenc é essa combinação humorística de Poulenc, com elegância, melancolia e cor por detrás de tudo. A música tem um lado espirituoso e quase irreverente, especialmente no Presto giocoso (o 3º andamento da sonata), mas de repente, consegue ser profundamente íntima e nostálgica na Cantinela (2º andamento). Essa dualidade de Poulenc toca-me muito.Dentro do tema “Ecos de Paris”, sinto que esta obra encaixa de forma muito natural. Poulenc faz parte daquela tradição musical francesa em que a clareza, a cor e a transparência são extremamente essenciais. O programa como um todo reforça essa ideia, onde temos a vivacidade elegante e cheia de carácter de Georges Bizet, como a Sinfonia nº 31 “Paris” de Wolfgang Amadeus Mozart, escrita para o público parisiense, e mesmo sendo de uma compositora americana, Rissolty Rossolty de Ruth Crawford Seeger acrescenta uma energia rítmica e uma paleta de cores muito viva, que dialoga bem com esta ideia de contraste e vitalidade.
Como tem decorrido a sua preparação para este concerto?Confesso que tem sido uma preparação bastante diferente do habitual. É uma obra que faz parte da minha lista de repertório praticamente todos os anos, mas adaptá-la à versão orquestral tem sido quase um exercício de imaginação constante.Nas minhas sessões de estudo dei por mim a pensar: como soará esta passagem com este grupo de instrumentos? Como vai funcionar o jogo de timbres e a afinação? Onde é que preciso de respirar, tendo em conta que entro com as madeiras ou com as cordas? São pequenos detalhes que mudam tudo e que, penso que terão de ser ajustados e pensados nos ensaios com a Orquestra do Algarve.Tendo em conta que estamos muito habituados a tocar esta sonata com piano, onde estamos focados unicamente no nosso pianista, aqui a escuta tem de ser muito mais ampla. Isso obrigou-me a ajustar o meu estudo e a pensar a obra de forma mais “orquestral”, o que tem sido desafiante, mas também muito estimulante.
Existe algum aspeto técnico ou interpretativo da peça que se tenha apresentado particularmente desafiante, ou que a tenha deixado ainda mais entusiasmada com a revelação de alguma descoberta?Um dos maiores desafios tem sido mesmo ajustar a cor do meu som ao contexto da orquestra, e ao que penso que será necessário de adaptar quando estiver em ensaio. Com piano, a referência é mais simples; com orquestra, há muito mais cores e camadas a acontecer ao mesmo tempo.Sobretudo nos pianos, tive de aprender a adaptá-los a um som inserido num conjunto muito maior, manter a delicadeza sem que o som desapareça, mas continuar presente. Encontrar esse equilíbrio entre integrar-me na orquestra e, ao mesmo tempo, manter presença, está a ser exigente, tendo em conta que ainda não ensaiei com a Orquestra do Algarve. Ao mesmo tempo, o processo está a ser muito entusiasmante. Esta procura fez-me redescobrir passagens que já conhecia há anos, mas sob uma nova perspetiva. É quase como se a obra ganhasse outra dimensão, e isso é das coisas mais bonitas deste processo.
Como gere a ansiedade antes de um concerto importante como este?Se for completamente honesta… acho que ainda não descobri a fórmula mágica para gerir a ansiedade antes de um concerto! Antes de concertos importantes fico sempre com aquele nervosismo extra, coração a bater mais depressa, mil pensamentos ao mesmo tempo, boca seca, e às vezes a única solução é mesmo aceitar que faz parte.A única coisa que está verdadeiramente no meu controlo é a minha preparação, estudar lentamente, rever detalhes e ter a sensação de que fiz tudo o que podia. Depois, no palco, já não dá para controlar tudo. Na verdade, nunca conseguimos tocar exatamente como idealizámos em casa, mas também acho curioso que é precisamente essa imprevisibilidade que torna cada concerto único e especial.
O seu prémio no Concurso Internacional de Música Júlio Cardona em 2025 foi uma grande conquista. De que forma essa vitória influencia a sua carreira e a leva a outras colaborações como esta, com a Orquestra do Algarve?O prémio no Concurso Internacional de Música Júlio Cardona em 2025 foi, sem dúvida, uma conquista muito especial para mim. Mais do que o reconhecimento em si, senti-o como um sinal de que estava no caminho certo e de que o meu trabalho e resiliência estavam a dar frutos.Num percurso artístico, é fácil termos dúvidas e questionarmo-nos se estamos a fazer as escolhas certas. Este prémio deu-me confiança para continuar a investir em mim e na minha carreira artística. Acredito que distinções como estas acabam também por abrir portas e gerar novas oportunidades, como esta colaboração com a Orquestra do Algarve. No fundo, vejo tudo como parte de um processo: cada experiência reforça a seguinte e motiva-me a continuar a evoluir, sempre com os pés bem assentes na terra.
Poderia partilhar uma memória marcante desse concurso?A memória mais marcante do Concurso Internacional de Música Júlio Cardona foi, na verdade, quando terminei de tocar a ronda da final. Foi uma ronda extremamente dura, não só pelo repertório exigente, mas também pelo tempo que tivemos para tocar e pela resistência que era necessária. Quando terminei, lembro-me de pensar: “Não consigo acreditar que consegui tocar isto!” Foi um misto de alívio, choque e felicidade que nunca mais vou esquecer.
Tem integrado orquestras prestigiadas, como a Gustav Mahler JugendOrchester em 2023 e a European Union Youth Orchestra em 2024/2025, atuando em salas icónicas como o Carnegie Hall ou a Elbphilharmonie. Como é que essas experiências internacionais moldam a sua personalidade musical e a abordagem profissional a concertos como este "Ecos de Paris"?Tocar com estas orquestras jovens europeias foi uma experiência que me marcou profundamente. Todas essas salas impõem muito respeito, é impossível não sentir aquela energia e dimensão do espaço, e isso exige atenção, muita concentração e responsabilidade.Do ponto de vista musical, aprendi a ouvir com mais cuidado, a adaptar a minha cor e articulação ao conjunto e a confiar na preparação que fiz. Também percebi como é importante encontrar equilíbrio entre disciplina e espontaneidade: podemos ter tudo estudado, mas cada concerto pede algo único. Para um programa como o Ecos de Paris, toda essa experiência ajuda-me a sentir-me mais segura, a gerir melhor a tensão e a dar espaço à expressividade, para que a música chegue com clareza e emoção ao público.
No programa, incluem-se obras de Bizet, Mozart e Ruth Crawford-Seeger – qual é a sua preferida além da de Poulenc, e porquê?Além da sonata de Francis Poulenc, diria que a minha peça preferida do programa é a Sinfonia nº 31 “Paris” de Wolfgang Amadeus Mozart.Adoro como Mozart consegue combinar brilho e leveza com uma energia contagiante. Cada andamento tem cores e ritmos muito diferentes, e mesmo sendo escrita há tanto tempo, consegue soar fresca e vibrante hoje. É uma daquelas obras em que sentimos imediatamente o génio da escrita orquestral, há espaço para detalhes delicados, mas também momentos de grande impacto, o que a torna divertida e inspiradora de ouvir.
Valoriza a divulgação de compositores diversos e pouco conhecidos ou defende a insistência exclusiva em nomes consagrados?Acho muito importante construir as nossas bases musicais com os grandes mestres da música clássica – como Mozart, Bach, Beethoven – porque é com eles que aprendemos técnica, estilo, profundidade, pois eles são, sem dúvida, os “pilares” da música. Mas, ao mesmo tempo, sinto que há um mundo enorme de compositores menos conhecidos que merece ser explorado. Existem obras incríveis que muitas pessoas nunca ouviram, e dar-lhes uma oportunidade de serem interpretadas é uma forma de manter a música viva, fresca e surpreendente. Para mim, é um equilíbrio: honrar o que já é clássico, mas também abrir portas para novas vozes e novas histórias dentro da música.
O que pensa sobre as características do público da música clássica, português e estrangeiro?Tenho notado algumas diferenças interessantes entre o público português e o estrangeiro. Estudando em Madrid e tocando várias vezes em Espanha, percebo que o público, em Espanha, é geralmente mais jovem, mais dinâmico e mais aberto a experimentar coisas novas, mesmo dentro da música clássica. Em Portugal, sinto que ainda existe um público muito dedicado, mas mais tradicional e mais “conservador” nos gostos, o que às vezes pode limitar a programação e a forma como se explora repertório mais diferente do habitual.No estrangeiro, de forma geral, existe também uma oferta cultural muito maior, com mais festivais, concertos e oportunidades para experimentar música de diferentes estilos e épocas. Isso acaba por criar um público mais diverso, que cresce com experiências variadas e está mais habituado a descobrir novas obras ou compositores menos conhecidos. Acho que, para nós, músicos portugueses, é extremamente inspirador perceber essas diferenças, porque nos mostra caminhos para aproximar a música clássica de públicos mais jovens e trazer mais dinamismo à forma como a interpretamos e a apresentamos.
Desde que iniciou os estudos aos 5 anos com a flauta de bisel e aos 8 com a transversal, no Conservatório Nacional de Lisboa, o que a mantém motivada?O que me mantém motivada é a vontade de fazer sempre mais e melhor. Gosto de me desafiar constantemente, explorar novas técnicas, descobrir repertório diferente e superar os obstáculos que surgem no caminho.O que me dá energia é poder transformar todo esse esforço em música para as pessoas que me ouvem, seja nas aulas, nas audições de orquestra ou nos concursos a que me apresento. Cada oportunidade de tocar em público é também uma oportunidade de aprender, de crescer e de sentir a música de forma mais profunda. A paixão por comunicar através da flauta é o que me faz continuar a investir tempo e dedicação todos os dias.
Há algum professor ou mentor que a inspire especialmente, como o Jacques Zoon na Escuela Superior de Música Reina Sofía, ou outro que queira referir?Tenho sido muito inspirada por alguns professores que marcaram o meu percurso como o meu professor atual, Jacques Zoon. Contudo, a minha professora de flauta de toda a vida, a Prof. Solange Silva, ensinou-me não só técnica, mas também a importância de uma rotina de estudo e de criar consistência, algo que se tornou fundamental na minha evolução como musicista.O meu professor assistente, Salvador Martínez, primeira flauta da Orquestra de Valência, trouxe-me uma preparação orquestral enorme, ajudando-me a compreender melhor o trabalho dentro de uma orquestra, a comunicação com os colegas e a sensibilidade que a música coletiva exige.Sinto-me muito sortuda por aprender com professores assim, que não só ensinam a tocar, mas que também mostram como crescer como músico, a perseverar e a sentir a música de forma completa.
Se estivesse a aconselhar um jovem músico que aspira seguir os seus passos, que sugestões lhe daria?Se estivesse a aconselhar um jovem músico, diria que não existe uma fórmula mágica. Eu própria ainda estou a encontrar o meu caminho e os meus objetivos na música. Mas acho que é essencial manter-nos fiéis à nossa própria música e à nossa forma de tocar, mesmo quando surgem desafios.A resiliência é fundamental: temos de trabalhar muito, todos os dias, e não ter medo de tentar atingir objetivos ambiciosos. Quanto mais nos desafiamos, mais crescemos. E acima de tudo, é importante não perder a paixão pelo que fazemos, é essa paixão que nos mantém motivados e nos faz continuar a aprender e a evoluir.
Quais são os seus planos futuros – tournées, gravações, projetos novos?Neste momento, as coisas estão um pouco incertas. Estou a terminar a minha licenciatura em Madrid, a fazer provas de mestrado e também a apresentar-me a audições para academias e lugares de orquestra. É muita coisa ao mesmo tempo, e infelizmente nem sempre se consegue prever o que vai acontecer.O que sei é que estou a dar o meu máximo em todas estas oportunidades, a aprender com cada experiência e a manter-me aberta ao que vier, o foco é estar preparada, tocar o melhor possível e deixar que as oportunidades surjam naturalmente.
Para concluir, que mensagem gostaria de deixar ao público que assistirá a este extraordinário concerto "Ecos de Paris"? Gostaria que cada pessoa que estiver na plateia se deixe levar pela música, que se permita descobrir detalhes novos a cada frase e que saia com a sensação de ter vivido algo especial.
Obrigado, Madalena, pelas suas respostas tão sinceras e interessantes. Ficamos assim a conhecê-la um pouco melhor, o que aumenta o já muito elevado desejo e grande vontade em ir ouvi-la em concerto. Muito sucesso na sua carreira e que esta seja a primeira vez de muitas outras. Obrigado eu! Espero que o público goste da minha versão de Poulenc e que consiga sentir toda a delicadeza, o humor e a emoção que esta obra transmite. Para mim, é uma peça cheia de cor e surpresa, e tocar com a orquestra neste concerto vai ser uma experiência incrível.
Saiba mais sobre os concertos aqui.
